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Privatização da Cedae

Flávio Guedes

Tratamento de 100% do esgoto doméstico no Rio é uma grande mentira

O engenheiro químico Flávio Guedes é funcionário da Cedae há 42 anos. Especializado nas áreas sanitarista e de meio ambiente, Flávio era um dos milhares de trabalhadores da Cedae que, junto com representantes de associações de moradores da Baixada Fluminense, comunidades populares e pequenos municípios do interior ocuparam as ruas do centro do Rio no dia 5 de setembro. A multidão foi até o BNDES protestar contra a proposta do governo do estado de fatiar a empresa e entregá-la à iniciativa privada. Em entrevista ao Direito de Opinião, Flávio Guedes mostra os riscos que a privatização da Cedae trará para a população do estado do Rio, em especial os mais pobres.

 

Direito de Opinião – Há anos se fala na privatização da Cedae. No que consiste a proposta atual?

Flávio Guedes – Consiste na requentada cisão proposta pelo Eduardo Cunha no governo da Rosinha Garotinho. Naquela ocasião, a Cedae seria dividida em seis empresas: uma de produção de água, que ficaria com o estado; e cinco de distribuição, que seriam entregues à iniciativa privada de modo gracioso. Os cedeanos derrotaram aquela excrescência.

Agora é a mesma coisa, só que propõem quatro empresas de distribuição e um gordo subsídio do BNDES. Mas, pesa aí a grande mentira, que é a universalização da coleta e tratamento do esgoto no estado num período de 15 anos e a um custo de R$ 16 bilhões. Meta impossível de ser atingida, pois não se coleta esgoto doméstico em localidades onde não haja urbanização – ruas asfaltadas, calçadas, coleta regular de lixo, galerias de água pluvial e os separadores absolutos para levarem o esgoto a uma ETE (estação de tratamento de esgoto). Quando não há ruas asfaltadas, o tráfego de caminhão, ônibus, vans e outros veículos quebra as tampas dos PV’s (poços de visita), os próprios PV’s e as linhas de esgoto. Em épocas de chuvas, as águas arrastam para dentro dessas linhas, areia, lama, lixo e outros detritos, entupindo-as irreversivelmente e inutilizando todo o sistema. Por conta disso, essa proposta de tratar 100% do esgoto doméstico no estado é mentirosa. E é com essa mentira que pretendem privatizar a Cedae.

Direito de Opinião – Quais as consequências da privatização para os usuários e para o próprio estado do Rio?

Flávio Guedes –  As consequências serão a piora dos serviços, como ocorreu no metrô, nos trens e nas barcas. No caso da Baixada Fluminense, a cobrança de esgoto é feita via parcela do IPTU – a Cedae não incluiu o esgoto nos convênios recentemente celebrados com as Prefeituras daquela localidade. Por conta disso, as cobranças nos municípios da Baixada preveem somente a cobrança da água. Com a proposta de privatização da Cedae as tarifas da população serão dobradas por conta da inclusão da cobrança do esgoto, o que a iniciativa privada fará rapidamente.

As obras que a Cedae hoje executa na Baixada, o Novo Guandu, ocorrem graças ao empréstimo de R$ 3,4 bilhões que a Cedae contraiu junto à Caixa Econômica Federal, a juros de mercado e que têm, como garantia, as contas de água e esgoto da AP4 (Barra, Recreio, Jacarepaguá, Vargem Grande e Vargem Pequena). A filosofia do subsídio cruzado é investir em áreas deficitárias como a Baixada (90% de inadimplência), a arrecadação de áreas superavitárias, como os bairros da Zona Sul e a AP4 (responsáveis por aproximadamente 70% da arrecadação da Cedae,  R$ 3 bilhões/ano). A própria garantia dada ao empréstimo de R$ 3,4 bilhões para as obras do Novo Guandu, funciona como uma espécie de subsídio cruzado.

 

Direito de Opinião – E as consequências para os empregados? Haverá demissão em massa?

Flávio Guedes –  Com certeza. No mínimo, a metade dos trabalhadores deve ser demitida num primeiro momento.

A Cedae tem hoje cerca de seis mil trabalhadores, todos celetistas, e a esmagadora maioria concursados. A partir da Constituição de 1988 o ingresso na Cedae é via concurso público. Há a previsão de um concurso para este ano ainda. Terceirizados e extraquadro também compõem uma parcela grande de empregados, passam de mil trabalhadores.

Hoje o número de empregados é insuficiente para a demanda dos serviços. Na década de 80, éramos aproximadamente 12 mil cedeanos. Hoje, mesmo com o aumento do volume d’água tratada, o aumento de clientes (economias) e de tubulações para distribuição d’água e coleta de esgoto, temos a metade de trabalhadores para executar todos os serviços.

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